Abrindo as cartas


O Instituto Moreira Salles, guardião de muitas cartas em seu acervo de Literatura, abre on line ao público AQUI, cartas que contam segredos, desabafos, declarações de amor, momentos íntimos ....

Só que agora, não mais .... Sorte nossa !

Das mais improváveis às mais curiosas, as cartas que agora temos como ler falam de momentos importantes ... pelo menos para quem as escreveu ou, mais ainda, para quem as recebeu.

Vale à pena escolher o emissor ou o título ou ainda abrir aleatoriamente as cartas que estão ali, disponíveis para o nosso deleite e prazer.

Parabéns ao IMS pelo trabalho primoroso que, com o tempo, vai receber mais material ampliando em qualidade e informação este acervo precioso e caro a todos.

Um trecho da apresentação ....

Por serem íntimas, costumam surpreender quando vêm a público, e, por exibir traços insuspeitados de seus autores, não podem ser sonegadas à história de um país. Sem divulgá-las, como saberíamos facilmente que o sóbrio jurista Rui Barbosa escreveu cartas tão apaixonadas à sua querida Maria Augusta?

Trago aqui, 2 cartas que gostei muito de ler ....

Aproveite !!!!!!!!!

Carta de separação à garrafa de uísque

De: Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos e muitos escritores de sua geração foram fiéis apreciadores de uísque, presente nos bares cariocas ou nas casas de poetas como Vinicius de Moraes, onde o bom scotch nunca faltava. Esta “Carta de separação” , crônica até hoje inédita em livro, foi publicada na coluna “Primeiro plano”, do Diário Carioca, onde Paulo foi colaborador desde 1946, quando iniciou a coluna semanal “Semana Literária”, até que em 1950 assumisse a coluna diária “Primeiro Plano”, que iria até 1961.

Creio, meu bem, que chegou finalmente o momento de dizermos adeus. Tentei todas as acomodações possíveis. Não posso ser acusado de não ter tido para contigo boa vontade e ca­rinho. Não posso admitir que se diga por aí, à boca pequena, que a culpa foi minha, que não tive compreensão da realidade. Os fatos são os fatos, e contra eles não podemos lutar. Não se pode dizer que não nos demos bem, é verdade. Não posso eu dizer que não devo a teu calor algumas das melhores horas de minha vida, de descanso, de alegria, até mesmo de poético en­levo, por que não. Naquele tempo em que ainda eras pura, e em que tuas exigências de di­nheiro, sem nunca ser modestas, ainda não atribulavam meu orçamento, pude manter-te com decência, não faltando jamais a nossos encon­tros. (Lembro-me agora, confesso, com indis­farçável ternura, esses pontos amoráveis de nos­sos antigos encontros, na esquina de Nilo Peçanha com a rua do México, na rua Senador Dan­tas, em Copacabana etc. etc.).

Quando foi mesmo que te encontrei pela primeira vez? Não posso precisá-lo, tantos anos já passaram, mas sei que foi amor à primeira vista, um amor que infelizmente, por tua causa, agora se interrompe.

Há já uns dois que vinha desconfiando de ti. Fingia que não o notava apenas por covardia, receoso de causar escândalo. Já andavas falsa, dissimulada. Àquela noite, na boate, custou-me engolir-te. Só agora vejo que nada ga­nhei com essa complacência senão muita dor de cabeça. Só agora vejo que só tinha a ganhar se houvesse te deixado quando desconfiei que já estavas misturada a más companhias, e que já não te portavas bem com quem por ti muitas vezes perdeu a cabeça. Por ti, quase fui preso; por ti, cheguei a brigar; por ti, fiz os piores pa­péis; por ti, perdi noites de sono; por ti, pedi dinheiro emprestado; por ti, prejudiquei minha saúde. No entanto, de que valeram tantos sacrifícios? Terias a coragem de não reconhecer que és falsa? Poderias negar que me levarias a uma situação econômica insustentável? Hoje, só um insensato deixaria de ver que as nossas relações não podem continuar mais. Resta-me um pou­co de equilíbrio e de amor próprio. Falta-me dinheiro para sustentar-te. Ah, se fosses pelo menos fiel, eu seria capaz de um esforço su­premo. Mas como estás, não, meu bem. Assim não é possível. Não há outro jeito senão uma separação que, de minha parte, deixa muitas saudades.

P. M. C.

Crônica de Paulo Mendes Campos publicada no Diário Carioca, Rio de Janeiro, 29/10/1953. Arquivo Paulo Mendes Campos / Acervo IMS.

Derradeira resolução

De: Dom Pedro I Para: Marquesa de Santos

Em maio de 1828, dom Pedro I, viúvo da imperatriz Leopoldina, recebeu a notícia de que a princesa bávara nascida na Itália dona Amélia de Leuchtenberg aceitara seu pedido de casamento. O contrato nupcial exigia o afastamento da amante do imperador, a marquesa de Santos, da corte, no Rio de Janeiro. Para cumprir a exigência do contrato, o imperador lhe escreve esta carta.

Rio de Janeiro, 13 de maio de 1828

Marquesa,

Não foram faltos de fundamentos os conselhos que lhe mandei em mi­nhas anteriores cartas para que me pedisse licença de­baixo de pretexto de saúde para ir estar em outra província do Império, a fim de eu poder completar meu casamento, no qual de frente se opõe a sua re­sidência nesta corte.

O marquês de Barbacena[1] é chegado, e sua vinda é motivada pela necessidade de me expor de viva voz os entraves que tem havido ao meu casamento em consequência da sua estada aqui na corte, de onde se torna indispensável sair por este mês até ao meado do futuro junho, o mais tardar. O caso é mui sé­rio. Esta minha comunicação deve pela marquesa ser tomada como um aviso que lhe convém aproveitar, o que não fazendo é da minha honra, do interesse deste Império e da minha família que eu tome uma atitude soberana e que, pelos muitos modos que as leis me subministram, eu haja de dar andamento a negócio de tanta magnitude. Eu conto que nada dis­to será mister, pois conheço o amor que a marquesa consagra à pátria e à minha família, mas fique certa que esta é a minha derradeira resolução, bem como carta que lhe escrevo a não me responder com aquela obediência e respeito que lhe cumpre como minha súdita e principalmente minha criada.

Aceite protestos daquela sincera amizade com que sou seu amo,

Imperador

Cartas de Pedro I à marquesa de Santos. Notas de Alberto Rangel. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 448.

[1] N.S.: Diplomata e militar, Felisberto Caldeira Brant, o marquês de Barbacena (1772-1842), viajou para a Europa em 1828 a fim de negociar o casamento de dom Pedro I com dona Amélia de Leuchtenberg.


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Delícias da Vida: minha família - marido e filhas, minha casa que é o melhor lugar e ...  viagens!

As Filhas, sempre por perto, nem que de vez em quando, virtualmente.

Em casa, a Mesa posta com carinho, boa Comida, um Vinho ou Borbulhas geladas e Gente Querida!!!

Nos planos, sempre um Novo Destino e em Boa Companhia!

É disso que falo aqui: Estilo com Inspiração, Criatividade, Talento, Ideias, Inovação, Paixões, Originalidade .... Experiências!

Já passei dos 50, sou de Capricórnio com ascendente em Aquário e, assim, estou cada vez mais Leve e querendo Compartilhar as Boas Coisas da Vida!

 

 
Escrito por Mia Athayde  
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