A Casa do Rio Vermelho – uma ode ao amor, à vida e às artes.

É com uma alegria imensa e uma grande honra que o MiaMiaBlog abre este espaço para uma querida amiga, a MaVi, nos contar com seu jeito único sobre a Casa do Rio Vermelho, em Salvador.

Com a palavra, MaVi :))

Depois de comentar entre amigos sobre as minhas impressões ao visitar A Casa do Rio Vermelho, morada dos escritores Jorge Amado e Zélia Gattai, a querida Mia, que gosta das histórias de arredores e de mais além, sugeriu que eu contasse aqui no seu blog, esta minha experiência.

A partir de agora, mais do que um contar, mostro o meu olhar inusitado sobre alguns aspectos da vida do casal Amado. Como diriam os anfitriões: “Se for de paz, pode entrar”.

O imóvel fica numa rua bucólica do Rio Vermelho, bairro boêmio de Salvador. Cada detalhe, da concepção à construção teve a participação dos amigos queridos do casal. Todos eles ligados às artes de alguma forma, entre eles, o artista plástico Carybé, responsável pela pintura dos azulejos com os símbolos dos orixás (Oxóssi, representando Jorge e Oxum, Zélia) e a arquiteta paulista, Lina Bo Bardi (os cacos de azulejos que cobrem alguns espaços e bancos do jardim, foi ideia dela), conhecida por ter projetado, entre outras coisas, o MASP/SP.

Detalhes de azulejos de Carybé, que dá acabamento a rodapés, camas de tijolos (todas as camas da casa), bancos e bancadas. No chão, composição de cacos de azulejos do artista Udo Knoff.

Transformar a casa em museu-memorial foi um sonho e decisão da própria Zélia ainda em vida. É um espaço iluminado, encantado, de uma riqueza sem fim. Repleto de muitas histórias, não só do casal, como também de personagens e costumes identitários da Bahia, que Jorge Amado tanto mostrou para o mundo em seus livros.

O arquiteto e cenógrafo Gringo Cardia é o responsável pela curadoria do projeto do memorial.

Quem visita a casa pode desfrutar de mil metros quadrados distribuídos entre 15 ambientes projetados, muitos deles mantém-se com as características originais, e cada um mostra uma particularidade da vida de Jorge Amado e Zélia Gattai.

Portão com motivos de pássaros e frutas do Brasil, criado pelo amigo Carybé.

Uma casa avarandada, adornada com gradis, idealizados pelo artista plástico Mário Cravo, e o telhado coberto com telhas-vãs, tudo isso visando não apenas a estética, como o aproveitamento da iluminação e ventilação naturais.

Há! Uma curiosidade: a casa do Rio Vermelho foi comprada com o dinheiro da venda dos direitos autorais (para o cinema) de "Gabriela, Cravo e Canela" à Metro Golden Meyer.

Por toda parte há referências de artistas de todas as origens e estilos. Estes, presenteavam o casal com suas obras, que ganhavam lugar de destaque na casa, desde os objetos mais simples, feitos por artesãos desconhecidos, a Di Cavalcanti, Picasso e Miró.

Logo na entrada, Picasso divide espaço com Mestre Vitalino.

Jorge Amado era um ser essencialmente apaixonado. Na lista de suas paixões estão o gosto por colecionar objetos de arte popular (gosto que dividia com seu amigo Carybé) e por sapos. Sua paixão por estes anfíbios era tão grande, que ele chegou, inclusive, a criar alguns (de verdade!) em um laguinho no jardim, hoje aterrado.

Este “sapão” aí à esquerda, com um sapinho nas costas, pertencia a Carybé, que o adquiriu numa viagem ao Japão. Em visita à casa do amigo, Jorge levou escondido o tal “sapão” para sua casa. Por diversas vezes saiu a passear pelo jardim com Carybé, tentando chamar a sua atenção para o sapo. Como o amigo não se tocava, Jorge indignado disparou: “Amigo, eu levei embora o sapo da sua casa, estou há dias tentando fazer com que você perceba: Você não merece este sapo! Ele agora é meu.”.

Outra história envolvendo as paixões do escritor aconteceu com este pato.

Em uma viagem a Paris, Jorge viu o animal em uma vitrine, quis comprar, mas Zélia não permitiu, alegando que não havia mais espaço na mala para trazer o objeto para o Brasil. Não contente Jorge apelou: “Sem este pato a minha vida não terá mais sentido. Eu preciso desse pato.”. Zélia não cedeu, mas se sentindo uma “megera”, enquanto o seu Amado tirava uma sesta depois do almoço, voltou até a loja e comprou o pato. Quando Jorge acordou, fez a mesma coisa (escondido de Zélia), mas ouviu da vendedora: “Uma moça bonita comprou o pato.” Jorge voltou para o hotel, onde estavam hospedados, desolado. De volta à Bahia, Zélia fez uma surpresa, dando para ele, o objeto como presente de aniversário.

Voltando ao nosso passeio pela Casa, nos ambientes foi feito uma produção audiovisual, que expõe, de forma dinâmica, informações sobre a vida do casal de escritores, como é o caso da Sala das Leituras, onde diversos artistas e intelectuais fazem leituras das obras de Jorge. Por toda casa são mais de 31 horas de vídeos, projeções e espaços interativos.

No quarto de hóspedes, mais histórias de amigos que se hospedaram na casa, como: Glauber Rocha, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Pablo Neruda, Roman Polanski, Jack Nicholson, Sartre e Simone de Beauvoir.

Detalhes do quarto de hospedes

O espaço abaixo é dedicado a sua trajetória como militante comunista. Sobre isso, ele fez a seguinte declaração numa entrevista: “Sem democracia, não se pode construir o socialismo. O coletivo não é o oposto do indivíduo [...]. Sem considerar o indivíduo ser humano não se pode pensar em socialismo. O que vai existir é, sempre, uma falsificação. São coisas que, para mim, ficaram claras, dentro de um processo sofrido, longo e cruel”.

Muitas cartas e cartões (mais de cem mil) foram trocados entre Jorge Amado, Zélia e amigos, como Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer, François Mitterand, entre outros.

Carta de François Mitterand, ex presidente da França.

Cartões de Carlos Drummond de Andrade

Carta de Oscar Niemeyer

Carta de Yoko Ono

As cozinhas (são duas): Uma pequena, que é a cozinha original da construção da casa, e uma maior, a "Cozinha de Dona Flor", que é uma extensão construída pelos Amado, após a construção, onde os visitantes podem aprender, através de vídeos interativos, diversas receitas de comidas que fizeram parte do universo do casal.

"Cozinha de Dona Flor"

Nesta parede, entre as duas cozinhas, uma coleção de pratos tanto adquiridos em viagens aos diversos países (foram mais de 100) realizadas pelo casal, como presenteados por amigos, a exemplo dos pratos de barro dados pelo músico Tom Zé, com estrofes de uma poesia escrita pelo mesmo.

A coleção de azulejos, representando folhinhas de calendário, presente do artista alemão Udo Knoff.

Na biblioteca e escritório estão reunidas todas as obras escritas pelo casal Amado, entre as quais, inclusive, as 41 traduções dos 40 livros de Jorge e os cerca de 17 livros de Zélia.

E aqui, os seus equipamentos de produzir mágicas.

Por toda vida, ele escreveu em sua máquina manual de escrever. Recusava-se a usar computador, dizia que gostava de ouvir o “plim” no final da linha. Na mesa de madeira da sala de jantar era onde a magia acontecia.

Zélia Gattai e Jorge Amado viveram um amor bonito e mágico! No quarto do casal trechos românticos dos livros de Jorge Amado são projetados na cama.

Detalhes da cama do casal.

O próprio Jorge Amado escolheu e plantou as diversas árvores frutíferas do jardim como, jaqueiras, sapotizeiros, pitangueiras, jambeiros... Além de espalhar pelos cantinhos estátuas de sapos.

Era neste incrível e charmoso jardim, nestes bancos, que o casal costumava sentar para conversar e namorar. Esta peça vermelha entre eles, que a depender do ângulo que se olhe, vê-se uma pomba da paz ou uma flor, foi um presente do amigo, o arquiteto Niemayer, para Zélia, depois da morte de Jorge Amado.

E é por aqui que as cinzas de Jorge Amado e Zélia Gattai encontram-se enterradas, como desejou Jorge em seu testamento de amor. O texto/testamento está transcrito nestas placas das laterais dos bancos:

“Sento-me contigo no banco de azulejos à sombra da mangueira, esperando a noite chegar para cobrir de estrelas teus cabelos, Zélia de Euá envolta em lua: dá-me tua mão, sorri teu sorriso, me rejubilo no teu beijo, laurel e recompensa. Aqui, neste recanto de jardim quero repousar em paz quando chegar a hora, eis meu testamento".

Jorge deu-me a mão e conduziu-me por mundos os mais distantes, os mais estranhos, os mais fantásticos.” (Zélia Gattai)

Foto extraída da internet: Fundação Jorge Amado - jorgeamado.org.br

A minha sensação foi a de que ao chegar à Casa do Rio Vermelho, fui amorosamente recebida por Jorge e Zélia, que estivemos conversando no banco do jardim enquanto eles me contavam essas histórias e que ao me despedir, fui delicadamente saudada com um – “Volte sempre!”

E aí está o relato mais que sensível e delicioso da MaVi ...

Eu ainda não conheço ao vivo e em cores a Casa do Rio Vermelho mas, depois desse contar da nossa baiana querida, um dia vou até e .... com outros olhos!!!!!!

Muitoooooooooooooo obrigada MaVi !!!!!!!!

A Casa do Rio Vermelho, Rua Alagoinhas, 33 – Rio Vermelho – Salvador – BA CEP: 41940-620

Contato@casadoriovermelho.com.br

Funcionamento: Terça a Domingo de 10h00 às 17h00

Ingresso: R$ 20,00 / Meia-entrada: R$10,00


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